O aumento de 45% no frete marítimo entre a China e o Brasil surpreendeu empresários nordestinos e já começa a pressionar os custos de importação na região.
Quando o frete marítimo da China para o Brasil sobe mais de 45% em doze meses, como aconteceu neste ano, o empresário que compra de um distribuidor do Sudeste só descobre isso três meses depois, na forma de uma tabela de preços reajustada. Ele não viu o aumento chegando. Não pôde antecipar a compra, renegociar o contrato nem ajustar sua própria precificação a tempo.
Aqui vale desfazer um mal-entendido. O empresário nordestino não está ausente do mercado internacional. Ele já está exposto a ele todos os dias: no papel que compra, na máquina que financia, no componente do produto que revende. A diferença é que hoje ele participa na ponta passiva, absorvendo variação de câmbio, frete e tributo decididos por outros, sem poder reagir.
Há um segundo motivo, menos confortável, para prestar atenção. A abertura vale nos dois sentidos. O mesmo fornecedor asiático que o distribuidor do Sudeste acessa hoje pode chegar ao mercado local amanhã, direto, sem intermediário. Conhecer o mercado internacional deixou de ser estratégia de expansão e virou defesa de território.
Não estou sugerindo que todo negócio deva abrir um processo de importação. A maioria não deve. Importar exige capital parado por sessenta a noventa dias, previsibilidade de demanda e disciplina de custo que muita empresa ainda não tem. Quem importa sem isso troca margem por estoque encalhado.
O que defendo é anterior a isso: saber o preço de origem do que você compra. Saber a NCM do seu produto. Saber quanto do preço que você paga é imposto, quanto é frete e quanto é margem de terceiro.
Essa informação é pública, é gratuita e leva um dia para ser levantada. E é o suficiente para mudar uma negociação com fornecedor, decidir um investimento em máquina ou perceber que sua vantagem competitiva era, na verdade, o desconhecimento do seu concorrente.
O Nordeste tem porto, tem incentivo fiscal, tem consumo e tem empresário disposto a arriscar. O que falta, na maioria dos casos, não é coragem. É informação de custo.
Arcelino Calado é CEO da PBF Comex e sócio da iCleanPro, empresa do Grupo ProHospital