O Brasil importou US$ 11,19 bilhões em dispositivos médicos em 2025 e exportou apenas US$ 1,15 bilhão, segundo a Associação Brasileira da Indústria de Dispositivos Médicos (Abimo). O resultado é um déficit comercial superior a US$ 10 bilhões, o país compra do exterior quase dez vezes mais do que vende.
Entre os principais fornecedores, a China ocupa a terceira posição, atrás de Estados Unidos e Alemanha. Em 2024, o país importou US$ 1,22 bilhão em dispositivos médicos chineses, 12,4% do total, fatia que chegou a 16,6% em 2022. Segundo a Abimo, a presença chinesa no setor deve se intensificar nos próximos anos, via parcerias e venda direta de produtos.
Para quem opera na ponta da cadeia, recebendo e distribuindo esses produtos a hospitais e clínicas, o déficit não é apenas um indicador macroeconômico: ele se traduz em prazo de reposição mais longo, exposição cambial e risco de desabastecimento em itens que não podem faltar.
“Esse déficit não é uma estatística distante. Ele aparece como prazo de entrega e como item em falta no estoque de um hospital”, afirma o CEO do Grupo PBF, Arcelino Calado.
Segundo ele, boa parte do impacto prático da dependência de insumos importados está no tempo de resposta da cadeia. “Quando um equipamento ou insumo crítico depende de importação, qualquer atraso no embarque ou variação cambial mais brusca vira um problema de gestão de estoque. Em saúde, isso não é só logística: é um paciente que pode ficar sem acesso a um procedimento na data prevista”, explica.
Arcelino destaca ainda que a distância entre o pedido e a chegada do produto amplia a margem de erro no planejamento. “O lead time de importação pode chegar a semanas, às vezes meses, dependendo da origem. Isso exige um colchão de segurança maior no estoque, o que encarece a operação em toda a cadeia”, diz.
Para o executivo, o debate sobre soberania produtiva em saúde precisa considerar a experiência de quem lida com o abastecimento no dia a dia. “Não basta ampliar a produção nacional no papel. É preciso que ela chegue com regularidade e previsibilidade à ponta, porque é isso que garante que o hospital tenha o item disponível quando o paciente precisa”, conclui.